Uma criança de 10 anos passa quatro horas assistindo vídeos de pessoas mostrando carros, viagens e contas bancárias com muitos zeros. Ela não está sendo idiota. Ela está sendo criança.

Esse é o ponto que quase todo mundo erra ao falar sobre o tema.

O problema não é que os jovens são fúteis ou preguiçosos. O problema é que o cérebro deles ainda está literalmente em construção — e alguém está usando isso como vantagem.

O córtex pré-frontal, a parte do cérebro responsável por avaliar consequências, planejar o futuro e resistir a impulsos, só termina de se desenvolver por volta dos 25 anos. Antes disso, a criança e o adolescente operam com uma versão incompleta dessa ferramenta.

Mostrar um jovem de 14 anos influencer ostentando mansão e dizer "você pode ter isso também" não é inspiração. É explorar uma vulnerabilidade neurológica.

75% querem ser influencers. E aí?

Uma pesquisa da INFLR com jovens brasileiros mostrou que 75% deles querem ser influenciadores digitais. De cada três jovens, dois têm isso como meta.

Mas o dado mais revelador não é esse.

É que, entre os motivados pelo sonho, 64% citam o retorno financeiro como a principal razão. Não a criatividade. Não a vontade de inspirar. O dinheiro. Rápido. Agora.

Isso não é um retrato de uma geração perdida. É o retrato de uma geração que aprendeu a equação errada: 

EXPOSIÇÃO NAS REDES = FAMA = DINHEIRO = FELICIDADE

Nessa lógica, o caminho convencional — estudar, construir carreira, esperar — soa como desvio. Como desperdício de tempo. E eles pregam isso também: hoje em dia fazer faculdade virou sinônimo de perder tempo.

A comparação que consome

Sabe o que acontece quando um adolescente abre o Instagram?

Ele não vê a vida real. Ele vê um recorte editado, filtrado e cuidadosamente selecionado para parecer perfeito. Viagem, carro, apartamento, corpo, relacionamento. Tudo no mesmo scroll.

A pesquisadora Lara Martinez, que estudou ansiedade social e autoestima em adolescentes, identificou dois mecanismos centrais nesse processo: validação e comparação. Quando o jovem vê esse recorte idealizado, ele olha para o outro e olha para si mesmo. E compara.

O problema é que a comparação nunca é justa. Você está comparando a sua vida inteira com o melhor momento de outra pessoa.

E quando a curtida não vem? Quando o vídeo não viraliza? Quando o follow não acontece?

Para muitos adolescentes, a ausência de validação digital não é só decepção. É rejeição. É a prova de que eles não são suficientes.


O FoMO e a armadilha da conexão constante

Existe um fenômeno que os pesquisadores chamam de FoMO — Fear of Missing Out, o medo de estar perdendo algo importante.

Ele funciona assim: o jovem sente que, se não estiver conectado, vai perder alguma coisa. Uma trend, um meme, uma oportunidade. E esse medo o mantém grudado na tela.

Nas redes, esse medo se mistura com outro: o de não fazer parte. De não aparecer. De ser irrelevante.

Estudos publicados na área de psicologia do desenvolvimento mostram que esse ciclo gera ansiedade constante. E a ansiedade, por sua vez, alimenta a busca por uma solução rápida. No caso dessas crianças e adolescentes, a solução imaginária é o dinheiro.

"Se eu for rico, serei visto. Se for visto, serei aceito. Se for aceito, estarei bem."

É uma lógica emocional, não racional. E é por isso que dados e argumentos não convencem — porque o problema não é de raciocínio.

O imediatismo que virou padrão

A geração que cresceu com streaming não sabe o que é esperar o episódio da semana que vem. A que cresceu com entrega no dia seguinte não entende por que um presente demora.

Isso não é crítica. É contexto.

Pesquisadores da Revista Contemporânea (2024) apontam que adolescentes ainda estão em fase de desenvolvimento das funções executivas — as que controlam impulso e autorregulação. Em paralelo, o ambiente digital recompensa velocidade e quantidade, não profundidade e consistência.

O resultado é um jovem que aprendeu que o mundo funciona em tempo real. E que qualquer coisa que demore mais de seis meses já parece improvável.

Construir riqueza de verdade, então? Parece ficção científica.

Quando o sonho não vem

A professora Nara Helena Lopes, da USP, identificou um risco que poucos estão discutindo: ao criar uma geração influenciada a ser influenciadora, estamos potencialmente criando uma geração que vai se frustrar profundamente quando o sonho não vier.

E ele não vai vir para a maioria.

Porque o mercado de influencers funciona como um funil brutalmente estreito. Milhões entram. Pouquíssimos chegam ao topo. E a narrativa que sustenta esse funil coloca toda a responsabilidade no indivíduo: se não deu certo, é porque você não se dedicou o suficiente.

O fracasso vira vergonha. A vergonha vira ansiedade. A ansiedade vira depressão.

Não é exagero. É o ciclo que psicólogos já estão atendendo nos consultórios.

O que está por trás disso tudo

Seria fácil culpar os pais. Ou os influencers. Ou o TikTok.

Mas a verdade é que existe um sistema muito bem montado por trás dessa narrativa de riqueza rápida. Plataformas que lucram com tempo de tela. Algoritmos que recompensam o extremo. Mentorias de R$50 mil vendendo o sonho de ficar milionário. Cursos que ensinam a "viver de internet" sem ensinar que 97% de quem tenta não consegue.

As crianças não inventaram esse ambiente. Elas nasceram dentro dele.

E a pergunta que importa não é "por que essa geração quer ser rica rápido?"

É: quem está lucrando com isso?


Fontes: pesquisa INFLR (2022); Lara Martinez, dissertação "Corpos filtrados" (PUC); Nara Helena Lopes, Jornal da USP (2021); Revista Contemporânea, vol. 4, n.12 (2024); dados Harris Poll/Lego (2019).