Em dez anos operando na bolsa, o professor Wagner — nome fictício — perdeu mais de R$ 653 mil. Vendeu três carros, livros, objetos pessoais e acumulou dívidas que hoje consomem R$ 6.400 do seu salário todos os meses. Mais do que o dinheiro, perdeu sua saúde: depressão aguda, crises de pânico e isolamento social foram o preço de um vício que começou disfarçado de investimento.

O caso de Wagner não é isolado. Em meio à epidemia das bets, outra dependência cresce silenciosamente no Brasil: a compulsão pelo day trade — a estratégia de comprar e vender ativos financeiros no mesmo dia, prometendo ganhos rápidos, mas entregando, na maior parte das vezes, perdas devastadoras.

O que é day trade?

Day trade é a prática de comprar e vender ativos financeiros — ações, minicontratos de dólar ou índice, criptomoedas — dentro do mesmo pregão, aproveitando oscilações de preço para lucrar. Diferente de investir no longo prazo, o day trader não carrega posições de um dia para o outro: tudo é aberto e encerrado nas mesmas horas de mercado.

A promessa é sedutora: trabalhar poucos minutos por dia, de casa, e construir liberdade financeira. Essa narrativa, amplificada por influencers e corretoras nas redes sociais, atraiu um volume sem precedentes de brasileiros para a prática — especialmente durante a pandemia, quando o isolamento e as incertezas do mercado de trabalho criaram o cenário perfeito para a armadilha.

Por que virar um vício?

A semelhança com o jogo patológico não é metáfora. Para a psiquiatria clínica, o vício em day trade compartilha os mesmos mecanismos neurológicos dos transtornos de jogo: busca por dopamina, tolerância crescente, síndrome de abstinência e perda de controle.

Cada operação é um ciclo completo de tensão e alívio. O cérebro associa a abertura de uma operação à antecipação de recompensa — independentemente do resultado. Quando o trade fecha no lucro, o pico de dopamina é intenso. Quando fecha no prejuízo, surge a urgência de "recuperar" — e é exatamente aí que o vício se instala.

"Cada operação era uma injeção de adrenalina, e eu precisava cada vez mais sentir aquela sensação. A promessa de fazer dinheiro em segundos me fez ver o day trade como um caixa eletrônico virtual." — Wagner, professor, 45 anos, ex-viciado em day trade

A psicanalista Marcielli Mota explica o fenômeno a partir da memória episódica: o trader tende a repetir comportamentos que, em algum momento, trouxeram prazer ou alívio — mesmo que tenham sido fruto do acaso. E quando o mercado financeiro começa a ocupar o papel de válvula de escape para problemas profissionais ou emocionais, a compulsão se consolida.

Por que o day trade é mais aceito socialmente que o jogo?

Quem aposta em cassinos ou plataformas de bets carrega um estigma imediato. Quem opera na bolsa, não. A diferença de percepção raramente tem a ver com os resultados — que, como mostram os dados, são comparáveis — e tudo a ver com a narrativa que envolve cada prática.

O day trade se beneficia de uma armadura simbólica poderosa: a linguagem do mercado financeiro. Termos como "análise técnica", "gestão de risco", "stop loss" e "gerenciamento de carteira" criam a ilusão de que existe um método científico controlando o resultado. O jogador de pôquer aposta. O trader "opera com estratégia". A diferença está no vocabulário — não na estrutura de risco.

Há também um componente de classe social. O day trade é praticado predominantemente por pessoas com renda e escolaridade acima da média — engenheiros, administradores, empresários. Essa origem reforça o verniz de racionalidade: "não é um vício, é um investimento que ainda não deu certo." O autoengano é parte do mecanismo.

Quem ganha, quem perde: os dados da FGV

Os estudos da Fundação Getulio Vargas encomendados pela CVM são os mais abrangentes já realizados sobre day trade no Brasil — e seus resultados são brutais. A pesquisa mais recente, publicada em 2025, analisou quase 1 milhão de brasileiros que operaram durante a pandemia.

Um achado particularmente revelador contradiz a crença de que a experiência melhora o resultado: quanto mais tempo o trader persiste, maior a probabilidade de prejuízo. A pesquisa mostrou que, após 200 sessões de "aprendizado", os traders passaram a perder em média R$ 91 por dia nas 100 sessões seguintes.

"É muito mais parecido com cassino: à medida que a pessoa vai repetindo as jogadas, a chance de continuar acertando diminui." — Bruno Giovannetti, economista, FGV EESP

A pesquisa da pandemia revelou outro dado alarmante: entre os dias analisados, 96,4% registraram resultado negativo para o conjunto das pessoas físicas. A perda bruta média foi de R$ 10.200 por pessoa — e o perfil dos perdedores incluiu administradores, engenheiros e empresários.

O negócio por trás do sonho

Corretoras e influencers têm incentivos claros para manter o fluxo de novos traders: cada operação gera corretagem, independentemente do resultado para o investidor. O professor de finanças comportamentais da USP ironiza: "Sempre lembro que quem ganhou mais dinheiro na febre do ouro da Califórnia foram os fabricantes de picaretas."

Wagner, hoje recuperado, alerta que com mais de 2 mil notas de corretagem poderia facilmente se passar por um guru de sucesso — bastaria selecionar apenas os dias de ganhos. "Nossa mente faz suposições equivocadas. Pessoas que acreditam ter autocontrole podem estar erradas," diz.


Fontes: FGV EESP/CVM (2019, 2025); Valor Econômico (2026); InfoMoney; Toro Investimentos; Clínicas Revive. Esta matéria tem caráter informativo e não constitui recomendação de investimento.