Quando se fala em inadimplência, o imaginário comum é o de um consumidor com dívidas espalhadas — uma fatura aqui, uma conta de luz ali, um empréstimo em outra ponta. A realidade brasileira, no entanto, é mais concentrada do que parece. Uma nova pesquisa da Serasa em parceria com o Opinion Box mostra que 49% dos brasileiros endividados com bancos têm mais de uma dívida na mesma instituição financeira. Não é dispersão. É acúmulo.
O dado se soma a outro recorte do Mapa da Inadimplência da Serasa: cada consumidor negativado carrega, em média, mais de três dívidas em aberto. Combinados, os números desenham um cenário em que o endividamento não se espalha — ele se aprofunda dentro do relacionamento com um único banco.
Como o mesmo banco vira a origem de várias dívidas
A explicação está, em boa medida, na própria arquitetura do relacionamento bancário. Quem tem conta corrente em uma instituição é, automaticamente, alvo preferencial dos demais produtos dessa mesma casa: cartão de crédito pré-aprovado, limite de cheque especial liberado por padrão, empréstimo pessoal sugerido no app, parcelamento da fatura, crédito consignado para quem é correntista há tempo.
O resultado é um ecossistema de crédito que, do ponto de vista do consumidor, parece conveniente — tudo num só lugar, num só app, com aprovação em segundos. Do ponto de vista financeiro, é um terreno fértil para o efeito bola de neve. Não é raro que o cartão estourado seja "salvo" com o cheque especial, que por sua vez é quitado com um empréstimo pessoal, todos na mesma instituição. A dívida muda de produto, mas não muda de credor.
A pesquisa reforça esse padrão ao mapear as principais fontes de endividamento bancário: o cartão de crédito lidera com 73%, seguido por empréstimos (56%) e pelo uso do limite da conta ou cheque especial (33%). São, justamente, os três produtos mais facilmente acessados dentro do mesmo banco.
O cartão como porta de entrada — e de permanência
O cartão de crédito merece atenção especial. Entre os endividados nesse produto, 37% acumulam dívidas superiores a R$ 10 mil e 36% convivem com essas pendências há mais de dois anos. É um perfil de dívida grande e duradoura, alimentada pelo rotativo — a modalidade de crédito mais cara do mercado brasileiro.
Aline Maciel, diretora da Serasa, resume o mecanismo ao apontar que o uso recorrente do crédito rotativo, especialmente em valores elevados, aumenta significativamente o risco de o endividamento se prolongar. Em outras palavras: o problema raramente é uma única decisão de compra mal calculada. É o uso continuado de uma ferramenta cara para tapar buracos que ela mesma ajudou a criar.
Sinais de que você está caindo nessa armadilha
Para o consumidor, identificar o padrão antes que ele se consolide faz diferença. Alguns sinais de alerta:
- Você usa o limite do cheque especial para pagar a fatura mínima do cartão — sempre do mesmo banco.
- Aceitou um empréstimo pessoal "pré-aprovado" no app para quitar o rotativo, mas continuou usando o cartão da mesma instituição.
- O parcelamento da fatura já virou rotina, e o saldo da próxima fatura nasce maior do que o pagamento que você acabou de fazer.
- Mais de 30% da sua renda mensal está comprometida com produtos de crédito de um único banco.
- Você não sabe ao certo quantos contratos de crédito ativos tem na sua instituição principal.
O que fazer quando o banco virou o credor de tudo
A saída costuma passar por três frentes simultâneas. A primeira é o diagnóstico: pedir o extrato de todas as operações de crédito ativas (o Registrato, do Banco Central, ajuda a consolidar essa visão) e somar os custos efetivos totais (CET) de cada contrato. A segunda é a portabilidade ou consolidação de dívidas em uma única operação com juros menores — possível, em muitos casos, mesmo dentro do próprio banco, desde que o consumidor negocie. A terceira é a renegociação direta, encarando o tamanho real do problema antes que ele cresça mais.
A concentração de dívidas no mesmo banco não é, por si só, um vilão. Mas é um sinal que merece leitura atenta: quando o credor é sempre o mesmo, a margem para barganhar condições melhores em outro lugar tende a encolher — e a saída costuma exigir um movimento ativo do consumidor, não uma oferta espontânea da instituição.
Princípio bíblico
"O rico domina sobre os pobres, e o que toma emprestado é servo do que empresta." — Provérbios 22:7
A sabedoria de Provérbios antecipa, em poucas palavras, a dinâmica que a pesquisa da Serasa descreve em números. Tomar crédito não é, em si, pecado ou erro — mas estabelece uma relação de dependência. Quando essa dependência se concentra em um único credor, o desequilíbrio se aprofunda. O texto bíblico não condena o devedor; alerta sobre a posição em que ele se coloca. Diagnosticar essa posição com clareza é o primeiro passo para sair dela.
Fonte: Pesquisa Serasa/Opinion Box, divulgada em maio de 2026, com 1.904 entrevistados e margem de erro de 2,2 pontos percentuais.