A digitalização das finanças eliminou um aspecto importante da nossa vida cotidiana: gastar apenas o que se tem na carteira. Apesar de parecer ultrapassado, o ato de olhar para o dinheiro em papel produzia uma série efeitos psicológicos interessantes.
Lembro de ir ao supermercado e gastar o mais próximo possível do que se tinha naquele momento. Algumas vezes eu até devolvia coisas no caixa para a conta fechar. Eu sentia que estava no controle de minhas escolhas para a quantidade de recurso que dispunha. Meus impulsos pareciam mais controlados, até porque o dinheiro disponível era o que estava na carteira.
De certa forma havia um efeito didático entre pegar a carteira, contar o dinheiro e pagar a compra.
A modernidade chegou e mudou radicalmente como olhamos para o ato de gastar. Não temos mais uma carteira física para olhar quanto de dinheiro temos naquele momento. Simplesmente vejo as pessoas pegando e pagando as coisas sem saber se existe saldo ou não. Particularmente nunca vi ninguém no supermercado olhando para o saldo da conta bancária no celular enquanto os produtos são contabilizados no check-out.
Falando ainda sobre supermercado, presenciei recentemente um caso bem curioso. A pessoa que estava na minha frente precisou “testar” 5 cartões diferentes para pagar uma compra de pouco mais de R$ 100,00. Parecia até que ela já sabia a sequência... O que mais me chamou a atenção não foram as 5 tentativas, mas o que a atendente disse ao cliente:
“fique tranquilo porque isto sempre acontece.”
Este exemplo só reforça uma percepção: os gastos digitais se tornaram uma ação emocional sem valor.
Esta facilidade digital apagou do nosso cognitivo aquele sentimento de ver o dinheiro saindo da carteira, e como isto poderia impactar futuras despesas. Consequentemente os gastos ficaram mais imperceptíveis, dificultando nossa avaliação quanto ao montante e possível dano ou benefício financeiro.
Fazendo um pequeno exercício neste contexto, sabe aquele cafezinho de R$ 8,00 que você toma todos os dias depois do almoço e paga no crédito? Pois é, só ele pode representar algo como R$ 176,00 por mês ou R$ 2.112,00 no ano.
De forma isolada este valor pode parecer insignificante, porém pense em quantos outros “cafezinhos” você paga digitalmente todos os dias sem perceber?
Pense nisto. Não se trata de criar uma mentalidade avarenta, mas entender que a mesma ideia da carteira física ainda é válida em tempos digitais.
Não se deixe enganar pelas facilidades.
“Na casa do sábio há comida e azeite armazenados, mas o tolo devora tudo o que pode.”
Provérbios 21:20