Existe um imaginário insistente sobre o brasileiro endividado: o do consumidor impulsivo, que estoura o cartão em compras supérfluas, viagens de feriado e parcelados que não cabem no bolso. É uma narrativa cômoda porque transforma um problema estrutural em falha de caráter individual. E é uma narrativa que os dados teimam em desmentir.

A nova pesquisa da Serasa, feita em parceria com o Opinion Box, mostra um retrato bem diferente. 38% dos brasileiros atribuem o endividamento com bancos ao desemprego ou à perda de renda. Quando o levantamento investiga para onde foi o dinheiro emprestado, a resposta é igualmente reveladora: contas básicas e quitação de outras dívidas aparecem como os principais destinos.

Não é shopping. É sobrevivência financiada a juros.

O recorte que o número esconde

O Brasil tem hoje 82,8 milhões de inadimplentes — 50,5% da população adulta. Metade do país com o nome negativado não é estatística sobre comportamento de consumo. É estatística sobre orçamento que não fecha.

Quando 38% das pessoas dizem que se endividaram porque perderam o emprego ou a renda, o crédito bancário deixa de ser uma escolha entre comprar agora ou esperar. Vira ferramenta de absorção de choque: cobre o aluguel do mês que a folha não cobriu, paga o mercado da semana, mantém a conta de luz ativa. O cartão de crédito, que lidera como principal fonte de endividamento (73%), opera nessa função há tempos para boa parte dos brasileiros — não como instrumento de adiamento de pagamento, mas como linha de crédito de última instância.

Aline Maciel, diretora da Serasa, sintetiza o ponto ao afirmar que o endividamento bancário no país não está ligado ao consumo impulsivo, mas à tentativa de manter o básico em dia. Quando alimentação e saúde passam a ser financiadas no crédito, alerta a executiva, o risco do efeito bola de neve cresce de forma significativa.

Por que isso muda a conversa sobre educação financeira

A indústria de educação financeira no Brasil — cursos, livros, perfis de influenciadores, programas de bancos — historicamente tratou a inadimplência como problema de comportamento. Planilha, método 50-30-20, corte de cafezinho, "deixe de ser pobre por escolha". Tudo isso pressupõe um orçamento que, ajustado, fecha. A pesquisa da Serasa sugere que, para uma parcela significativa da população, o orçamento simplesmente não fecha — não há gordura a cortar porque a estrutura já está no osso.

Isso não invalida educação financeira. Mas redimensiona o problema. Ensinar alguém que ganha o suficiente para cobrir suas despesas a organizar melhor o dinheiro é uma coisa. Sugerir o mesmo método a alguém que está financiando a cesta básica no rotativo do cartão é, no melhor dos casos, descolado da realidade.

A discussão produtiva passa por outras camadas: política de juros (o rotativo segue sendo uma das modalidades de crédito mais caras do mundo), políticas de renda e emprego, acesso a microcrédito produtivo, programas estruturados de renegociação de dívidas, e — algo menos óbvio — desenho de produtos bancários menos desenhados para capturar quem já está em dificuldade.

A negociação como sintoma, não como solução final

A pesquisa traz ainda um dado que costuma passar despercebido: 71% dos entrevistados já tentaram negociar suas dívidas com bancos. Não é uma população resignada com o nome sujo. É uma população que tenta sair, mas que, segundo a própria executiva da Serasa, frequentemente esbarra em condições que ainda não cabem no orçamento.

Esse descompasso é, talvez, o resumo mais honesto do problema. De um lado, 54,9% dos endividados se dizem confiantes em conseguir arcar com uma negociação. Do outro, muitos olham para as ofertas disponíveis e percebem que mesmo o desconto de hoje não cabe na renda de amanhã. Mais descontos e redução de juros aparecem, no levantamento, como os fatores que viabilizariam o pagamento — uma resposta que, lida com atenção, diz menos sobre disposição e mais sobre capacidade.

O que esse retrato cobra do debate público

Tratar dívida como falha moral é confortável porque desresponsabiliza o sistema. Tratar dívida como sintoma — de mercado de trabalho instável, de renda achatada, de produtos de crédito desenhados para gerar receita justamente quando o cliente está em dificuldade — é mais incômodo, mas mais preciso.

A pesquisa da Serasa não resolve o problema, mas ajuda a nomeá-lo melhor. Metade da população adulta brasileira está negativada. A maior parte chegou ali não comprando o que não podia, mas tentando manter o que não dava mais para sustentar. O recado, para quem produz política pública, produto financeiro ou conteúdo sobre dinheiro, é direto: a conversa precisa começar de outro lugar.

Princípio bíblico

"O que oprime ao pobre insulta àquele que o criou, mas o que se compadece do necessitado o honra." — Provérbios 14:31

A passagem desloca a discussão sobre dívida do plano estritamente financeiro para o plano da dignidade. Reconhecer que o endividado brasileiro, em sua maioria, não é alguém em fuga da disciplina, mas alguém tentando manter o básico em pé, é também reconhecer sua humanidade. Produtos de crédito desenhados para extrair receita máxima de quem está em dificuldade, narrativas que culpabilizam o devedor sem olhar para a estrutura, políticas que ignoram a relação entre renda e dignidade — todos esses são, à luz do texto, formas modernas de "oprimir o pobre". Compadecer-se, no sentido bíblico, não é assistencialismo: é desenhar sistemas que respeitem quem está do outro lado.


Fonte: Pesquisa Serasa/Opinion Box, divulgada em maio de 2026, com 1.904 entrevistados e margem de erro de 2,2 pontos percentuais.