O tema que mais temos visto e debatido nos últimos tempos é o vício em apostas esportivas, as famosas bets. Como já sabemos, esse problema cresce a passos largos e, até agora, as iniciativas do governo para frear a dependência e os estragos que ela causa seguem tímidas e insuficientes. Mas há outro vício que avança em silêncio — igualmente destrutivo, porém muito menos comentado e, o que é mais perigoso, muito menos estigmatizado: o day trade.
Vejo amigos fazendo isso. Talvez você também conheça alguém assim. A diferença é que, enquanto o viciado em bets é facilmente rotulado pela sociedade, o viciado em day trade costuma ser visto como alguém "empreendedor", "antenado no mercado financeiro", "buscando independência". Essa aparência de sofisticação é exatamente o que torna esse vício tão traiçoeiro.
As redes sociais como motor do problema
O combustível desse fenômeno vem diretamente das redes sociais. No YouTube, no Instagram e no TikTok, uma legião de influenciadores exibe carros de luxo, viagens internacionais e print de operações lucrativas, prometendo que qualquer pessoa pode replicar o mesmo resultado. O que esses conteúdos omitem, convenientemente, são as estatísticas reais por trás da prática.
O modelo é simples e perverso: o influenciador não precisa ganhar dinheiro operando. Ele ganha vendendo cursos para quem acredita que vai ganhar operando. O produto, no fim das contas, é a esperança — e ela não tem preço de custo.
A realidade que os números mostram
Os dados são brutais para quem ainda nutre essa esperança. Um levantamento da Grana Capital revelou que 71,87% dos investidores pessoas físicas perderam dinheiro ao operar no curto prazo entre agosto de 2024 e julho de 2025, em uma análise com quase 34 mil investidores. Apenas 61 deles conseguiram lucro acima de R$ 100 mil em um ano inteiro.
A Fundação Getulio Vargas (FGV) chegou a conclusões ainda mais perturbadoras: de 19.696 pessoas que começaram a fazer day trade, 92,1% desistiram em algum momento. Entre as que persistiram por mais de 300 pregões — tentando de fato viver da prática —, 91% tiveram prejuízo, e apenas 13 pessoas obtiveram lucro médio diário acima de R$ 300.

Um vício disfarçado de investimento
O grande problema é que o day trade compartilha com o jogo patológico o mesmo mecanismo neurológico de recompensa: a adrenalina da aposta, a esperança da virada, a compulsão de "recuperar o que perdeu". Para muitos traders, a falta de disciplina e a esperança de recuperar prejuízos levam a comportamentos impulsivos muito prejudiciais.
Ao contrário de uma aposta em bets, porém, a operação de day trade acontece dentro de uma plataforma financeira regulada, com terminologia técnica e aparência de seriedade. Isso cria uma ilusão de controle que retarda — às vezes indefinidamente — o reconhecimento do problema.
As consequências vão além do dinheiro
Os estragos não ficam restritos à conta bancária. O vício em day trade pode desencadear altos níveis de estresse, ansiedade e depressão, agravados pelas perdas constantes e pela pressão de recuperar o dinheiro perdido. Socialmente, tende a causar isolamento, afetar relacionamentos e comprometer o desempenho no trabalho ou nos estudos.
Há casos documentados de pessoas que largaram empregos estáveis, sacaram o dinheiro do Tesouro Direto, chegaram ao limite do cheque especial e venderam o carro — tudo para financiar mais uma operação na esperança de virar o jogo. A situação vai se deteriorando até chegar ao limite: falência, crise psicológica e abandono completo das finanças.
O que precisa mudar
Assim como aconteceu com as bets, o debate sobre o day trade compulsivo precisa sair das páginas de finanças e entrar na conversa sobre saúde pública. Não se trata de proibir a prática — traders profissionais existem e operam com responsabilidade. Trata-se de reconhecer que, para uma parcela significativa da população, o day trade funciona como uma porta de entrada para a dependência financeira e emocional, turbinada por um ecossistema de influenciadores e plataformas que lucram independentemente do resultado do usuário.
Enquanto a conversa pública não chegar lá, mais pessoas continuarão acreditando que estão investindo — quando, na verdade, estão apostando.
Fontes
Grana Capital (2025)
FGV EESP — Fernando Chague e Bruno Giovannetti — Estudo sobre day traders entre 2013 e 2018
CNN Brasil — Reportagem sobre o estudo da FGV
TradingView News / CoinTelegraph Brasil — Reportagem sobre o levantamento da Grana Capital