O brasileiro tem muitos vilões para culpar quando o salário não fecha o mês. O juro alto. O preço da comida. O patrão que não dá aumento.

Mas tem um vilão novo, silencioso, que entrou pela porta de trás e ninguém colocou na conta. Ele tem nome: BET.

E quem diz isso não é militante nenhum. É gestor de banco.

Dinheiro que vai pra BET não vai pro supermercado

A frase é de Eduardo Alhadeff, gestor de crédito da Ibiuna — gente que passou anos no JPMorgan, em Londres, analisando dívida de país emergente. Não é gente de fazer drama.

E mesmo assim ele cravou: o que está corroendo a renda das famílias brasileiras não é só o serviço da dívida. É a bet.

A lógica é de uma simplicidade brutal: o dinheiro é o mesmo. Se ele entra na plataforma de aposta, ele não entra no carrinho do mercado. Não tem mágica.

E o resultado já chegou nas gôndolas. O Grupo St Marche, dono de redes conhecidas em São Paulo, pediu recuperação com R$ 528 milhões em dívidas. O Grupo Pão de Açúcar tem R$ 4,5 bilhões para renegociar. E o mercado já fala numa terceira rede no mesmo caminho.

Supermercado não quebra do nada. Quebra quando o carrinho esvazia. E o carrinho esvaziou.

A "cachaça de antigamente"

Alhadeff fez uma comparação certeira: a bet, hoje, é quase como a cachaça de antigamente.

O marido que aposta escondido da esposa. O dinheiro que some sem explicação. A vergonha que vem depois, quando ele precisa inventar onde foi parar o salário. Eu disse marido, mas tem esposas, filhos e outros parentes viciados.

Sacou? Não é entretenimento. É vício.

E vício escondido acaba com a renda da família antes de qualquer um perceber. A diferença é que a cachaça ficava no bar, fechava de madrugada e dava ressaca. A BET fica no bolso, ABRE 24 HORAS e te persegue por notificação no celular.

O gatilho mora dentro de casa, anda junto com você e nunca dorme.

Quem paga essa conta? O pobre. Sempre o pobre.

Aqui é onde a história deixa de ser triste e vira escândalo.

O próprio Banco Central, no Estudo Especial nº 119, botou número nisso. Em UM ÚNICO MÊS — agosto de 2024 — cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família mandaram R$ 3 bilhões para as bets via Pix.

Leia de novo. Dinheiro de programa social. Dinheiro carimbado para tirar família da miséria. Fazendo o caminho de volta para o site de aposta.

A mediana foi de R$ 100 por pessoa. Parece pouco? Para quem vive com um benefício de cerca de R$ 681, são 15% da renda do mês apostados na ilusão de virar o jogo.

E não é caso isolado: 17% de quem estava no cadastro do Bolsa Família apostou no período.

Quem mais precisaria de cada centavo é exatamente quem mais está perdendo.

A matemática que ninguém quer fazer

A família de baixa renda já compromete cerca de 30% do que ganha só para pagar dívida. Trinta por cento. Antes de comprar um pão.

Aí chega a bet e tira mais um naco. E não sobra.

Quem está endividado não troca de marca no mercado. Quem está endividado corta comida.

Quem está endividado não compra o remédio. Quem está endividado adia a luz.

Quem está endividado aposta de novo, torcendo para a próxima virar o jogo.

Má notícia: NÃO VIRA.

A casa não precisa nem trapacear. A matemática já joga por ela.

E o tamanho disso é assustador

Para você ter ideia: ao longo de 2024, entre R$ 18 e R$ 21 bilhões por mês foram parar nas bets via Pix. No começo de 2025 já batia em R$ 30 bilhões mensais. No ano, algo perto de R$ 240 bilhões.

Duzentos e quarenta bilhões de reais que saíram da economia real — do mercado, da farmácia, da escola do filho — e foram para uma roleta digital.

E o que o governo fez? Legalizou. Para arrecadar. Comemorou os quase R$ 10 bilhões que entraram no caixa em 2025. 👏​👏​👏​

Enquanto isso, o supermercado fechava as portas. E o mercado financeiro, como bem disse Alhadeff, ainda nem dimensionou o tamanho do estrago.

A baixa renda já dimensionou. Sente no fim do mês. No carrinho vazio.

O que está sendo roubado de verdade

Não é só a feira.

É a dignidade de chegar no caixa e não passar vergonha. É o leite da criança. É o remédio do idoso. É a sensação mínima de que o esforço do mês valeu alguma coisa.

Cada real jogado numa plataforma de aposta é um real que não virou comida na mesa de uma família que já não tinha de sobra.

E enquanto o pobre aposta a feira, a propaganda sorri, a celebridade fatura e o governo conta o dinheiro arrecadado.

O Brasil precisa de comida na mesa. O que está recebendo é mais uma aposta perdida.

Precisa de ajuda?

Se você ou alguém que você conhece está preso no vício das apostas, saiba que existe saída. O endividamento, a vergonha e o desespero são reais — mas não são o fim da história.

Procure ajuda. Converse com um familiar, um amigo de confiança, ou ligue para o CVV (Centro de Valorização da Vida) pelo número 188, disponível 24 horas.

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🔗​ Leia nosso artigo sobre como bloquear o CPF nas BETS:

https://finidesk.com/news/brasil/bloqueio-total-de-bets-ja-esta-no-ar-sua-familia-pode-usar-agora


Você não precisa enfrentar isso sozinho.

"Porque eu bem sei os planos que tenho para vós, diz o Senhor; planos de paz e não de mal, para vos dar um futuro e uma esperança." — Jeremias 29:11


Fontes: entrevista de Eduardo Alhadeff (Ibiuna) ao programa Stock Pickers / InfoMoney (jun/2026); Banco Central, Estudo Especial nº 119; dados de arrecadação do governo federal com apostas (2025).