O governo estuda uma nova versão do programa Desenrola. A proposta mantém a renegociação de dívidas, mas traz uma novidade: quem aderir ao programa poderá ter restrições para contratar novos créditos, principalmente nas linhas mais caras, como rotativo do cartão e cheque especial.

A ideia é evitar que a pessoa renegocie hoje e volte a se endividar amanhã. O problema é que a medida ataca o efeito e não a causa.

O que é o programa Desenrola

O Desenrola foi criado para facilitar a renegociação de dívidas de pessoas físicas. O foco era permitir que pessoas negativadas limpassem o nome com descontos relevantes e novas condições de pagamento.

Na prática, o programa buscava:

  1. reduzir inadimplência
  2. renegociar dívidas com desconto
  3. reestruturar pagamentos
  4. devolver acesso ao crédito

Foi uma medida voltada para o estoque da dívida já existente.

O que muda no Desenrola 2.0

A nova versão mantém a renegociação, mas inclui uma contrapartida. Quem aderir ao programa poderá ter limitações para contratar novas dívidas, especialmente nas linhas mais caras.

Entre as restrições discutidas:

  1. bloqueio do rotativo do cartão
  2. limitação do cheque especial
  3. restrição temporária a novas dívidas
  4. redução de acesso a crédito caro

O objetivo é diminuir a reincidência no endividamento.

O problema: a causa raiz continua

-> O Desenrola renegocia a dívida.

-> O Desenrola 2.0 tenta impedir novas dívidas.

Mas nenhum dos dois resolve o ponto central:

EDUCAÇÃO FINANCEIRA.

O brasileiro não se endivida apenas porque quer.

Se endivida porque:

  1. não tem reserva de emergência
  2. não entende custo do crédito
  3. usa limite como renda
  4. parcela despesas recorrentes
  5. não controla orçamento

Sem educação financeira, a renegociação vira apenas um intervalo entre duas dívidas.

A contradição do cenário

Existe ainda outro ponto que chama atenção.

O mesmo governo que agora quer limitar o acesso ao crédito caro é o governo que regula e permite a expansão das bets no país.

Enquanto se discute travar:

  1. rotativo do cartão
  2. cheque especial
  3. crédito caro

o mercado de apostas segue:

  1. amplamente acessível
  2. com publicidade massiva
  3. disponível no celular
  4. sem limite de comprometimento de renda

Na prática, o risco financeiro não está apenas no crédito.

Também está no comportamento incentivado.

O que realmente atacaria o problema

Se o objetivo é reduzir o endividamento de forma estrutural, o caminho passa por:

  1. educação financeira desde a base
  2. incentivo à reserva de emergência
  3. transparência sobre custo do crédito
  4. redução do estímulo ao consumo de risco
  5. informação clara sobre juros

Sem isso, programas de renegociação continuam sendo paliativos.

O Desenrola ajuda e o Desenrola 2.0 tenta ir além.

Mas o problema central continua o mesmo:

sem educação financeira, a dívida sempre volta.