O governo estuda uma nova versão do programa Desenrola. A proposta mantém a renegociação de dívidas, mas traz uma novidade: quem aderir ao programa poderá ter restrições para contratar novos créditos, principalmente nas linhas mais caras, como rotativo do cartão e cheque especial.
A ideia é evitar que a pessoa renegocie hoje e volte a se endividar amanhã. O problema é que a medida ataca o efeito e não a causa.
O que é o programa Desenrola
O Desenrola foi criado para facilitar a renegociação de dívidas de pessoas físicas. O foco era permitir que pessoas negativadas limpassem o nome com descontos relevantes e novas condições de pagamento.
Na prática, o programa buscava:
- reduzir inadimplência
- renegociar dívidas com desconto
- reestruturar pagamentos
- devolver acesso ao crédito
Foi uma medida voltada para o estoque da dívida já existente.
O que muda no Desenrola 2.0
A nova versão mantém a renegociação, mas inclui uma contrapartida. Quem aderir ao programa poderá ter limitações para contratar novas dívidas, especialmente nas linhas mais caras.
Entre as restrições discutidas:
- bloqueio do rotativo do cartão
- limitação do cheque especial
- restrição temporária a novas dívidas
- redução de acesso a crédito caro
O objetivo é diminuir a reincidência no endividamento.
O problema: a causa raiz continua
-> O Desenrola renegocia a dívida.
-> O Desenrola 2.0 tenta impedir novas dívidas.
Mas nenhum dos dois resolve o ponto central:
EDUCAÇÃO FINANCEIRA.
O brasileiro não se endivida apenas porque quer.
Se endivida porque:
- não tem reserva de emergência
- não entende custo do crédito
- usa limite como renda
- parcela despesas recorrentes
- não controla orçamento
Sem educação financeira, a renegociação vira apenas um intervalo entre duas dívidas.
A contradição do cenário
Existe ainda outro ponto que chama atenção.
O mesmo governo que agora quer limitar o acesso ao crédito caro é o governo que regula e permite a expansão das bets no país.
Enquanto se discute travar:
- rotativo do cartão
- cheque especial
- crédito caro
o mercado de apostas segue:
- amplamente acessível
- com publicidade massiva
- disponível no celular
- sem limite de comprometimento de renda
Na prática, o risco financeiro não está apenas no crédito.
Também está no comportamento incentivado.
O que realmente atacaria o problema
Se o objetivo é reduzir o endividamento de forma estrutural, o caminho passa por:
- educação financeira desde a base
- incentivo à reserva de emergência
- transparência sobre custo do crédito
- redução do estímulo ao consumo de risco
- informação clara sobre juros
Sem isso, programas de renegociação continuam sendo paliativos.
O Desenrola ajuda e o Desenrola 2.0 tenta ir além.
Mas o problema central continua o mesmo:
sem educação financeira, a dívida sempre volta.