Recentemente assisti a um vídeo bem interessante do Ben Zruel no Youtube(*). Sua abordagem traz luz sobre uma contradição relevante em nossa sociedade: o alto número de carros novos nas ruas e o endividamento de 81,6% das famílias brasileiras.

Na prática o que ele apresenta é que o automóvel se tornou um símbolo de status e de dores de cabeça para as pessoas. A necessidade constante de aprovação dos outros para o sucesso pessoal, tem levado muitas famílias a fazerem dívidas desnecessárias.

Boa parte desta armadilha emocional que tem laçado os mais volúveis, passa obrigatoriamente pelas “condições imperdíveis” que os financiamentos ou consórcios de veículos vendem. Como as pessoas estão “cegas” pela vaidade, esquecem dos juros ou das taxas de administração que incidem sobre o bem.

As taxas de juros para financiamento de veículos no Brasil variam em média de 1,1% a 2,8% ao mês (cerca de 14% a 40% ao ano), dependendo do banco e do seu perfil de crédito.

Em muitos casos você leva 1 carro para casa e “dá” quase a metade de outro para a financeira (lembrando que a financeira e o banco já ganharam sobre o spread).

O consórcio por sua vez, camufla a não incidência de juros através das taxas de administração que variam entre 15% e 20%.

Neste contexto, além dos juros ou das taxas de administração, uma depreciação anual entre 10% e 20% para veículos de passeio precisa ser considerada na conta.

Resumindo, comprar um carro novo com a motivação errada, caracteriza um erro bastante grosseiro e com consequências amargas para seu fluxo de caixa familiar no presente e no futuro.

Não bastasse a questão do carro, o mesmo racional se estende para diferentes aquisições ligadas aos “símbolos de sucesso”.

A ilusão do status baseado no endividamento criou uma nova categoria de endividados segundo o Banco Central (**): os superendividados.

Uma das principais características deste grupo é a exposição simultânea do indivíduo as multimodalidades de crédito. Ou seja, a pessoa tem dívidas no rotativo do cartão de crédito, na financeira, no limite do banco e com outras pessoas. UM CAOS TOTAL!

Neste sentido, diferentes instituições financeiras têm alertado para um aumento do número de superendividados, até mesmo pela tendência de retração da atividade econômica nacional em vários setores.

Apesar da taxa de desemprego ter reduzido em 2026, o poder aquisitivo das famílias também diminuiu ocasionado pelo aumento da inflação.

Na prática é quase a “tempestade perfeita”: poder de compra menor, com inflação mais alta e um endividamento recorde!

A pergunta que fica é:
será que vale a pena contrair dívidas apenas para ostentar um pseudossucesso efêmero?

Como resposta mais factível, gosto de um aforismo à deriva (***) atribuído ao falecido jornalista Arnaldo Jabor, que diz:

"compramos coisas que não precisamos, com dinheiro que não temos, para impressionar pessoas que não gostamos".


Pense nisso.

Trabalhe com tranquilidade e liberdade para construir um patrimônio sólido sem precisar provar nada para a sociedade. Sem dúvida isto é uma benção!

Por outro lado, não esqueça de “acumular riquezas no céu” (Mateus 6:19-21).

Afinal de contas, nosso tempo aqui na terra é muito curto para ser desperdiçado apenas com os nossos caprichos.

Spread bancário - é a diferença entre os juros que um banco cobra ao emprestar dinheiro e a taxa que ele paga para captar esse mesmo recurso. A margem de lucro líquida dos bancos nesta transação é em média de 20%. 

(*)https://www.youtube.com/watch?v=ut_vRel-EVk

(**)https://www.bcb.gov.br/content/cidadaniafinanceira/documentos_cidadania/serie_cidadania/serie_cidadania_financeira_8_endividamento_risco_2ed.pdf

(***) aforismo à deriva: é o fenômeno em que frases curtas e impactantes perdem seu autor original ao longo do tempo e passam a ser atribuídas incorretamente a figuras famosas para ganhar mais autoridade ou compartilhamento. (https://pt.wikipedia.org/wiki/Aforismo_%C3%A0_deriva)